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12 de agosto de 2020

Pandemia, xadrez on line e trapaça: O que fazer?

Muito tem se falado, e com razão, sobre a pandemia de COVID19 que se instaurou no mundo no ano de 2020 e, para nós brasileiros, em especial a partir do mês de março. Estamos sendo compelidos a (re) aprender a arte da (não) convivência social, em exercícios diários de disciplina, civilidade e, principalmente, paciência.

Ficar compulsoriamente em casa tem sido um desafio penoso, sobretudo para aqueles que, para além da preocupação sanitária, estão impedidos de promover a digna sobrevivência própria e das suas famílias, sendo este um fenômeno extremamente preocupante para a estabilidade social.

Com o processo de quarentena mundial, as atividades desportivas, por sua natureza intrinsecamente associada ao contato físico e/ou à aglomeração de pessoas, também permanecem quase que absolutamente interrompidas, salvo raras exceções, em países cujos níveis de contágio encontram-se controlados, e ainda sim tais eventos têm ocorrido sem a presença de público.

Com o xadrez não foi diferente. Em que pese a FIDE ter protagonizado uma polêmica ao manter a continuidade do torneio de candidatos em meio à pandemia, fato ensejador, inclusive, da desistência do GM Teimour Radjabov, um lampejo de bom senso acabou por permear os dirigentes da entidade que, pressionados pelo contexto de atenção mundial, interromperam a competição em sua primeira metade.

Evidentemente, a tecnologia atual nos potencializa acesso a coisas realmente extraordinárias. Ao contrário do que ocorre com outros esportes, sobretudo os de natureza predominantemente física, no concernente ao xadrez, é perfeitamente possível enfrentar adversários de quaisquer lugares do mundo a partir do computador ou smartphone.

O xadrez virtual não é fenômeno novo, decorrendo dos idos da década de 1990. Ocorre que, nos últimos anos, observou-se um grandioso boom da modalidade, em especial após o surgimento das grandes plataformas, como os websites lichess.org e chess.com. A cada dia, tais empreendimentos têm se tornado mais completos e complexos, propiciando a todos, capivaras e mestres, a possibilidade de estudarem e treinarem com os mais fortes jogadores do mundo, inclusive com o campeão mundial, Magnus Carlsen.

No contexto da pandemia, o boom que já havia se estabelecido tornou-se uma verdadeira explosão nuclear, e isso tem uma razão bastante óbvia: com a ausência de torneios presenciais, praticamente todos os jogadores, se não todos, passaram a participar de eventos on line, de forma que os clubes deixaram de ser físicos e passaram à condição de virtuais.

A quarentena mundial, em que pese estar provocando prejuízos econômico-sociais incalculáveis, para o xadrez, ao que parece, não está sendo assim tão catastrófica, pelo menos do ponto de vista dos aficcionados, os quais se mantêm impassíveis ante as telas dos seus computadores e smartphones, alguns competindo por todo o dia. 

Mas, nem tudo são flores. A migração em massa de jogadores para as plataformas virtuais trouxe à tona um debate que já existia, mas nem de longe tinha a dimensão apresentada na atualidade: o uso de engines. Os famosos programas, presentes nos estudos de basicamente a integralidade dos enxadristas, vêm sendo usados em massa por jogadores que parecem não ter assimilado bem os padrões éticos e de moralidade do homem médio.

A pandemia trouxe consigo os espertalhões, cujo objetivo é inflar os seus ratings e egos a partir de vitórias artificiais e desonestas, mas também os acusadores, estes em regra jogadores mais fortes que, ao perderem partidas para outros de classificação inferior, acreditam ter sido ludibriados pelo adversário.

Como se sabe, as plataformas de xadrez virtual possuem mecanismos que, em tese, são capazes de identificar o condutor das peças como uma máquina, esta detentora de precisão inalcançável aos meros mortais. Entretanto, em muitas situações, tais ferramentas falham (ou não?) em  (não) individualizar as condutas desonestas, o que tem levado inúmeros competidores a fazerem denúncias e exposição pública dos casos, isso ocasionado, não raro, festivais de deselegância incompatíveis com a conduta esperada de cavalheiros, além de reprovável difamação.

E quem está certo? Evidentemente, quem faz uso do engine sempre está errado, afinal, estabelece-se uma trapaça cuja natureza deve ensejar punições severas, como as já aplicadas, inclusive a grandes mestres surpreendidos colando em torneios presenciais. Por outro lado, não me parece justo expor alguém, que com certeza além de jogador de xadrez é pai/mãe, filho/filha, marido/esposa e profissional, a situações publicamente vexatórias, com base em conjecturas pessoais, mesmo o acusador sendo um jogador forte.

Minha proposta é: deixemos a avaliação dos casos controversos para as plataformas, já que estas dispõem dos meios adequados a fazê-lo e, uma vez identificados os trapaceiros, que sejam punidos, se não desportivamente, com a pior das sanções, a reprovação social.  

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